Info

Designer gráfico, fotógrafo, aprendiz de escritor e aspirante a diplomata.

Colofão

Indico

Never relaxed, never relaxed

Os sábios gregos

Dizem que as prostitutas de Corinto, quando um pobre, por acaso, as tenta, nem sequer lhes prestam atenção. Mas, se é um rico, logo lhe oferecem o cu.

Aristófanes

Despedida de um pai

Masanobu Kuno foi piloto a serviço do exército imperial japonês durante a Segunda Guerra. Kuno, que serviu na base de Chiran, conhecida por formas kamikases, deixou sua casa na noite de 23 de maio, de 1945, para nunca mais retornar.

Como última mensagem ao filho de 5 anos e à filha de 2 anos deixou essa carta e no dia seguinte arremessou seu avião contra um navio aliado na Batalha de Okinawa.

Queridos Masanori e Kiyoko,

Embora vocês não possam me ver, sempre estarei olhando por vocês. Quando vocês crescerem, sigam o caminho que desejarem e se tornem um bom homem e mulher japoneses. Não invejem os pais dos outros. Seu pai se tornará um deus e estará velando por vocês. Estudem muito e ajudem sua mãe com o trabalho. Não poderemos brincar de cavalinho, mas sejam bons amigos. Sou uma pessoa feliz que pilotou um grande bombardeiro e exterminou todos os inimigos. Por favor, sejam pessoas invencíveis como seu pai e vinguem minha morte.

Seu pai

Via Mojo e Letters of Note

I am joined with you forever

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And what difference does it make?
I love you so much anyway
And on your breast I gently laid
Your arms surround me in the lake
I am joined with you forever

Bruno Schleinstein – 1923 – 2010

Mais humor historiográfico

O modelo operacional de “desenvolvimento” podia ser combinado com vários outros conjuntos de crenças e ideologias, contanto que não interferisse com ele, isto é, contanto que o país interessado não proibisse, por exemplo, a construção de aeroportos por não terem sido autorizados pelo Corão ou a Bíblia [...] . Por outro lado, onde tais conjuntos de crenças se opunham ao processo de “desenvolvimento”  na prática, e não apenas em teoria, asseguravam o fracasso e a derrota. Por mais forte e sincera que fosse a crença em que a magia desviaria balas de metralhadora, ela funcionava demasiado raramente  para fazer muita diferença. O telefone e o telégrafo eram melhores meios de comunicação que a telepatia do taumaturgo.

Eric Hobsbawm – A Era dos Extremos

Sim, isso é uma meia

O grande domador

Quando eu comprei a Kisa meus planos eram grandes. “Ela vai ser a dona da casa”, me disseram, mas eu pensava que seria diferente. “Sem subir na casa” eu me dizia.

Com isso em mente comprei-lhe uma casinha. Não era perfeita. Era uma casinha para cachorros. Com cãezinhos saltitantes, ossinhos e até rosnadinhos estampados em balõezinhos de quadrinhos. Um ataque ao orgulho felino.  Mas achei que fosse servir. Parecia confortável.

Isso foi há 4 anos.

Nesse tempo ela deve ter entrado dentro da casa por no MÁXIMO 5 vezes. A estadia somada não deve ter ultrapassado 10 segundos. No resto do tempo ela se limitava a ignorar por complexo sua presença ou quando não o fazia cheirava-lhe com desdém e ia embora.

Fui derrotado. Ela subia na cama. Deitava-se sobre minha cabeça e nos dias de mau humor me mordia o pé, como que pra dizer que o intruso era eu.

Recentemente, movido por uma crise alérgica e pela compra de uma nova cadeira (a antiga havia sido destruída ao ser transformada em afiador de unhas), decidi me tornar nazista e impor-lhe um regime severo. Ela só entra no meu quarto quando estou em casa. Não pode subir na cama nem se aproximar da cadeira. Quando saio fecho-a fora do quarto.

Após poucos dias, já pude sentir resultados. Ela quase faz vênia para entrar. Senta-se num cantinho e fica me observando.

Hoje lembrei da casinha, que ela ainda ignorava e resolvi tentar a sorte. Após 20 minutos: SUCESSO!

Agora ela pode ficar quentinha e confortável ao meu lado enquanto trabalho.

Quando a Inglaterra tinha um exército decente

Soldado britânico que tomou parte nas guerras napoleônicas. A razão da vitória é perceptível.

Lembranças da 2ª Guerra

NO MOMENTO em que o Estado brasileiro ainda debate sobre o cumprimento de um acordo diplomático de extradição com a Itália, a respeito do senhor Cesare Battisti, é oportuno destacar que ontem, dia 14 de abril, completaram-se 65 anos daquela que pode ser considerada a maior vitória da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária nos campos de batalha da Itália.

Montese foi o pontapé nas dobradiças que ajudou o 4º Corpo de Exército norte-americano a arrombar uma porta da linha Gêngis-Khan, a última linha defensiva germânica.

Foi a primeira grande vitória obtida exclusivamente pelos brasileiros, da maneira brasileira, com a participação de batalhões dos três grandes e tradicionais regimentos de infantaria originalmente sediados nos Estados de São Paulo (o 6º), Minas Gerais (11º) e Rio de Janeiro (1º).

A manobra continha a ideia da moderna infiltração, hoje familiar à nossa infantaria, e o êxito em muito se deveu à ação audaciosa do pelotão do tenente Iporã Nunes de Oliveira, do 11º RI, de Minas Gerais.

Surpreende constatar que a passagem das tropas brasileiras no norte da Itália está nítida na paisagem e nas pessoas da região da Emilia-Romanha. Monumentos de eloquente singeleza feitos pelas municipalidades locais despertam emoção em quem lê os agradecimentos pela participação brasileira na luta pela liberdade e pela democracia.

Préstimos e sorrisos se abrem a quem pede informações sobre os locais por onde passaram os brasileiros, e se apontam as alturas onde lutaram “i soldati brasiliani”.

O monumento brasileiro no sopé de Monte Castelo está no lugar certo.

Não é preciso conhecer a história ou a ciência militar nem ler o texto correto que ali se encontra, castigado pela neve e pelo vento gelado, para pressentir o campo de batalha, onde honra e sacrifício arrostaram as metralhadoras e morteiros alemães.

Dali, voltando o olhar para o sul, pode-se perceber a famosa estrada 64 serpenteando ao lado do Reno na direção de Pistoia, por onde fluíam para a luta os suprimentos e reforços e refluíam os feridos e mortos.

O monumento votivo militar brasileiro em Pistoia é um lugar de paz, ao lado do pequeno cemitério que a comunidade resolveu limitar para dar lugar aos mortos brasileiros que ali repousaram. O pároco local, percebendo brasileiros, apressa-se em lhes entregar lembranças e folhetos do monumento.

O que ficou em todos esses locais por onde passaram as tropas brasileiras? Por que essa memória dos brasileiros, que nem maioria eram naquela Babel de tropas aliadas?

Os números da FEB, segundo padrões brasileiros, impressionam até hoje -cerca de 25 mil homens e mulheres-, mas não eram predominantes. A dimensão do esforço e dos feitos da divisão de infantaria da FEB parece ainda não ter sido notada pelos historiadores brasileiros. Assim, não é de se esperar que o seja por estrangeiros.

Uma pista veio da curiosidade de um adido militar brasileiro, impressionado com a disposição de um italiano em ceder o terreno para acolher um monumento brasileiro.

O proprietário, percebendo a pergunta não feita, antecipou-lhe a resposta: “Nós não esquecemos”. Havia uma tropa que não distribuía a comida que sobrava nem queimava o excedente para evitar contaminações.

Ela dividia sua comida com os habitantes e as crianças entravam na fila antes dos soldados. Eram os brasileiros.
Após a rendição alemã, o Brasil declinou do oferecimento de um setor de ocupação aliado na Áustria. Fez bem. Das guerras, o país ficou apenas com lembranças, e, se andou pelo lado certo da história, muito deve à cordialidade, seu traço cultural distintivo.

Mas não foi só isso. Uma sensata tradição diplomática de respeito ao direito internacional deu-lhe credibilidade, um patrimônio a ser preservado com a atuação equilibrada do governo brasileiro nos grandes temas da política internacional.

O que, no caso da extradição com a Itália, recomenda o afastamento de qualquer decisão política que ameace a amizade e o reconhecimento dos italianos a tudo aquilo que o Brasil lá deixou em prol dos direitos dos povos.
As lembranças de guerra do Brasil estão vivas no bom combate que travou na luta pela paz. Preservemo-las.

SÉRGIO PAULO MUNIZ COSTA – Folha de S. Paulo 15/05/2010