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Designer gráfico, fotógrafo, aprendiz de escritor e aspirante a diplomata.

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Moscou – Parte 1

A Rússia é tão intensa que a experiência de conhecê-la começa antes de pisar na Radná.

Depois de esperar por 12 horas em Lisboa pela conexão com Moscou finalmente embarquei. As diferenças já podiam ser notadas pela nave. Modelo menor que o do que fez o voo Brasil x Lisboa, o avião que viajaria à ex capital soviética tinha apenas duas fileiras de três cadeiras divididas por um único corredor, o que obrigava todos os passageiros a interagirem de maneira mais íntima.

Com exceção de mim e um casal português suponho que todo o resto dos passageiros era composto por russos. Longe de ser uma conclusão sherlockiana a suposição se baseia não na aparência física (que aliás é tão diversificada entre os eslavos quanto entre os brasileiros) mas no comportamento. Mal me acomodei e o avião se transformou em um pandemônio. Homens gigantes andando para todo o lado, trocando de lugares, jovens semi-alcoolizados ouvindo hip-hop russo no fone do celular (lembre-se antes de falar que só funkeiro faz isso), velhos rindo e falando alto e, como contraste, uma linda e rosada senhorinha lendo O Apanhador no Campo de Centeio em inglês.

O tumulto se acalmou um pouco quando um policial do aeroporto subiu a bordo. Pensei que fosse para expulsar algum dos bêbados, mas ele abriu um dos porta-volumes, tirou uma mala de metal cheia de cadeados e perguntou em inglês de quem era.

Diante do silêncio e da algazarra que voltava a se formar agora que ele deixara de ser novidade, ele repetiu a pergunta, dessa vez falando pausadamente.

Um russo de 2,20 metros, bochechas vermelhas como maçãs, sobrancelhas como taturanas grisalhas e um esplêndido bigode ruivo de Charles Bronson, se levantou e disse “Mnya”!

O diálogo seguiu em inglês.

- O que o senhor traz ai dentro?
- Química
- Como assim, química?
- Química de mistura
- Produtos químicos?
- Não
- Então o que?
- Química de biologia
- Não estou compreendendo senhor. Há alguém com você que fala inglês?
- São cristais
- Cristais? Pedras?
- Sim. Cristais para química de biologia.

O policial pareceu confuso, agradeceu e saiu. Depois de 10 minutos outro policial voltou com um comissário de bordo e perguntou novamente pelo dono da mala. Dessa vez respondeu uma menina com aparência de suricato rosa, em um inglês bem ruim, mas melhor que o do Charles Bronson ruivo.

- O que a senhora está levando aí dentro?
- Produtos de química
- Líquidos?
- Não.
- Sólidos?
- Não.
- Então o que?
- De olhar.
- Como assim?
- Não sei dizer. São de olhar coisas de biologia.
- Senhora, o que a senhora está trazendo consigo é uma substância ou uma máquina?
- Máquina.
- Um microscópio?
- ISSO!

Curiososamente, depois de tantas minúcias na segurança, o policial parece ter ficado satisfeito com a resposta e se retirou sem nem sequer examinar a mala. O vôo decolou mas passei o resto do tempo esperando ser vítima de algum atentado Checheno.

Mas, se fosse pra mover, que eu ao menos morresse descansado. Ao ir ao banheiro notei uma fileira de 3 bancos vazios e decidi me mudar pra lá a fim de levantar os braços dos assentos e transformá-los em cama.

Na fileira de trás estavam sentados uma senhora e dois senhores. Perguntei a um deles, que era uma versão eslava do Scorsese, se algum dos bancos estava ocupados.

Ele os indicou com a mão, fazendo movimentos de incentivo, e disse “Davai, davai!”.

Me deitei e após alguns minutos um sujeito parou diante dos bancos fazendo sinais que davam a entender que um dos lugares pertencia a ele. O velho Scorsese sacudiu meu banco com FÚRIA OLÍMPICA enquanto gritava coisas em russo e apontava o dedo pra mim. O outro sujeito se desculpou com um “Svinitye” deprimido e foi procurar outro lugar para sentar.

Enquanto a viagem seguia e eu tentava dormir fiquei acompanhando o martírio do Scorsese para conseguir se embebedar sem saber inglês e sem ser impedido pelas regras de limite de álcool no voo. Primeiro ele pediu vinho. Depois pediu de novo, e de novo. A cada dose ele falava mais alto, chutava mais vezes meu encosto e, como prêmio aleatório, me enviava um perdigoto voador que passava por cima do banco como um obus e vinha aterrissar em alguma parte do meu rosto.

Depois do quarto copo a aeromoça começou a explicar a ele que não podia lhe servir mais álcool.

- No more alcohool Sir. It’s against the law.
- RED VINE!
- No more wine, sir. I’m sorry.
- VAITE VINE THEN!
- I can’t serve you any beverage, Sir.
- Ok, ok, ok …
- I’m glad you understand.
- VODKA then!

O voo prosseguiu com repetições dos mesmos temas. Foram apenas 5 horas, mas foi o suficiente para perceber que qualquer ocasião é oportunidade para o povo russo se divertir e aproveitar a vida, mesmo durante um voo.

PS: Camila, encontrei a caneta.

30/11/11 – Lisboa

Voo saindo do Rio de Janeiro em direção a Lisboa marcado para as 19h15. É claro que estava atrasado, ao contrário de mim, que cheguei cedo, pra variar. A melhor namorada do mundo se virou de maneiras inimagináveis para me acompanhar e ficar algumas horas a mais comigo. Valeu a pena e serviu para recolher na minha roupa um pouco mais do único e reconfortante cheiro dela. Lembrança do amor que deixei em casa.

Às 20h15, quando o avião finalmente partiu, minha cabeça já estava sendo bombardeada pelo sotaque de Algarve vindo do meu companheiro de voo. Mais que as impressionantes peripécias aventurescas que contava (instrutor de mergulho, dono de um apartamento de 1 milhão em Copacabana, saltador de paraquedas e incapaz de mascar chicletes por usar dentaduras em consequência de um acidente com snowboard nos Alpes suíços) o que mais me chamou atenção foi o fato de ele (e, como vim a notar depois, quase todos os portugueses) ter esquecido que o S não tem som de X (“Xim, xim, xou mergulhador!”). Isso e a capacidade ímpar de falar por horas sem respirar (um grande indício de que, de fato, ele é mergulhador).

Durante a janta ele começou a jogar seus alimentos na minha bandeja. Dois pães, manteiga, geléia, biscoito, um pote de macarrão com ervilhas e um pudim de leite moça. DEPOIS de ter me entulhado ele achou por bem explicar “Não como nada disso, pode comer se quiseres”.

Curioso, esse meu companheiro de voo.

Chegando a Lisboa passei sem problema pelos trâmites e consegui meu carimbo. Eram 8 horas da manhã. Meu voo para Moscou sai às 19 horas. Com medo de ter um derrame na Praça Vermelha decidi ir ao centro da cidade em busca de um albergue barato qualquer a fim de cochilar. A moça do balcão de turismo do aeroporto parece não ter entendido a parte do “barato” e me indicou uma pensão de 45 euros. Resolvi pagar 3 euros por uma hora de wi-fi no aeroporto e procurar um lugar no nível de mendiguice que eu precisava. Encontrei o Black & White Hostel, no centro de Lisboa, a 25 minutos de ônibus.

A entrada do B&W

Não tive problemas em chegar, as instruções no site eram precisas (menos preciso era o preço informado: 3 euros abaixo do preço real). Escolhi o quarto mais mendigo possível, o com 16 camas, e tentei dormir. Consegui por 2 horas quando um dos ocupantes, um negro gigante, velho e de rastafári, começou a usar a voz de Barry White para cantar a irlandesa que cuidava do caixa e da arrumação dos quartos. Desisti de dormir quando vi que ele não pararia e decidi explorar a cidade. Antes peguei algumas dicas sobre a Rússia com um chinês doentio que veio da Sibéria até Lisboa de moto.

O melhor que você vai conseguir por 9 euros

Decidi conhecer o tão falado Convento do Carmo. Acabei vagando perdido por 40 minutos em ruas íngremes porque decidi me guiar pelo péssimo mapa fornecido pelo aeroporto (não me admira que com essa habilidade para criar mapas os portugueses tenham MIRADO na Índia e acertado o Brasil). Os locais pareciam se divertir com o fato de eu estar perdido procurando pelo Convento. Fui salvo pela visão da camisa canarinha trajada por um fotógrafo de Vitória que mora aqui há 5 anos e me levou ao tal convento.

Decepção total.

É só isso. Só isso MESMO

Depois de me emputecer por caminhar 40 minutos pra ver uma entrada de pedra resolvi voltar para o aeroporto não sem antes, no entanto, notar que o histórico Bairro Alto é repleto de casas de strip, peepshow e gayporn.

Excelente lugar para um convento.

Contagem de pedidos de esmola: 2 (sendo um de uma senhora muito bem vestida e educada que me fez uma linda vênia de agradecimento após minha negação)

PS: Camila, já perdi a caneta :(
PS2: Lisboa também tem o famoso centro de depilação juizforano “Pelo Zero”

Há dois tipos de pessoas solitárias: as que querem e as que merecem.

Já foram todos embora?

Bom, muito bem.

Já é seguro escrever aqui novamente.

Vivendo sob meu vizinho – 24/11/10

Desde o primeiro post sobre os problemas com o vizinho fiz mais 4 gravações, num total de 85 horas de estrondos, músicas, telefonemas altos e toda a sorte de bulha que o DEMÔNIO é capaz de produzir.

Desisti da ideia inicial de postar os barulhos diários porque são a mesma coisa. Todos os dias, o dia inteiro, com pausa de apenas umas 5 horas por dia. Não interessaria nem ao mais sádico de vocês.

Passada a meia noite de hoje os ruídos consuetos prosseguiam aliados dessa vez a uma irritante canção de narcômano tornando a minha concentração na leitura do Gerson Moura impossível. Cheguei a cogitar pegar o extintor de incêndio e dar uma de Irreversível pra cima dele, mas fui ordeiro e chamei a PM.

Muito solícitos, sem ironia, os policiais foram até lá e me disseram que ele não abriu a porta. Fez a mesma coisa, ficou parado olhando pelo olho mágico. Me fez um favor. Agora tenho um BO unilateral e tudo que eu preciso para botá-lo na justiça caso ele continue a agir como se fosse o único morador do mundo.

DELIÇA

Aprendendo política externa com estranhos

Hoje no ônibus tive minha leitura da Economist interrompida por um senhor que discursava sobre política externa em voz alta. Era negro, próximo dos 50 anos, de bigode e boné promocional de uma casa de produtos agropecuários. Sentado a seu lado um homem baixo e franzino, mais velho, branco como neve, que ouvia absorto interrompendo o silêncio vez ou outra para concordar com um murmuro.

A convicção e o ânimo com que o pregador falava me fizeram desistir da revista e aprender sobre política com um verdadeiro mestre.

Coisas que aprendi com ele:

  • Os EUA perderam a guerra naquela floresta que fica no Japão, o Vietnã.
  • Os EUA têm apenas dois partidos políticos: os democratas e os veteranos
  • Israel é a maior potência militar do mundo. Se quiserem eles engolem os EUA e fazem assim *palita os dentes com o indicador*
  • A China vai dominar o mundo porque lá tem tanto japonês que eles somam mais que a população do resto do mundo.
  • Obama é o primeiro presidente americano africano.
  • Iranianos são árabes

E a melhor de todas:

  • Hitler está vivo na Argentina

Vivendo sob meu vizinho – 10/11/11

Há cerca de 2 meses um novo vizinho se mudou pro apartamento de cima. Moro nesse mesmo apartamento há 8 anos e nunca antes havia tido problemas ou feito reclamações de vizinhos. Mas esse caso é particular.

O vizinho passa o dia INTEIRO arrastando coisas sob minha cabeça. Já imaginei dezenas de causas prováveis que me fizessem acreditar que não se trata de má-fé e a única coisa que pude pensar é em uma cadeira particularmente barulhenta aliada a uma infestação de oxiúros. Aparentemente ele também sofre de problemas auditivos já que eu posso ouvir todas as músicas que ele ouve e os sons de alerta do seu MSN.

Pra piorar ele não dorme. Fica acordado sapateando sobre minha cabeça até as 3 da madrugada e às 7 da manhã já começou tudo de novo.

Já falei com o síndico, pedi os porteiros para interfonarem pra ele, falei com a administradora do condomínio e fui à casa dele às 3:30 da manhã pedir pra parar. Nada adiantou.

Com todos os métodos de soluções pacíficas de controvérsias frustrados, meu último recurso antes da retaliação física é levá-lo à justiça. De modo que resolvi gravar todo dia uma amostra do que eu passo.

Tente se imaginar querendo dormir ou estudar com esses ruídos zoando intermitentes sobre suas cabeças.

Porte sorte, ou azar, ontem, o dia da primeira gravação, ele esteve particularmente comportado. O barulho habitual é maior e mais frequente. Aguardem os próximos capítulos.

Manual de instruciones

La tarea de ablandar el ladrillo todos los días, la tarea de abrise paso en la masa pegajosa que se proclama mundo, cada mañan topar con el paralepípedo de nombre repugnante, con la satisfacción perruna de que todo esté en su sitio, la misma mujer al lado, los mismos zapatos, el mismo sabor de la misma pasta dentífrica, la misma tristeza de las casas de enfrente, del sucio tablero de ventanas de tiempo con su letrero «Hotel de Belguique».

Meter la cabeza como un toro desganado contra la masa transparente en cuyo centro tomamos café con leche y abrimos el diario para saber lo que ocurrió en cualquiera de los rincones del ladrillo de cristal. Negarse a que el acto delicado de girar el picaporte, ese acto por el cual todo podría transformarse, se cumpla con la fría eficacia de un reflejo cotidiano. Hasta luego, querida. Que te vaya bien.

Apretar una cucharita entre los dedos y sentir su latido de metal, su advertencia sospechosa. Cómo duele negar una cucharita, negar una puerta, negar todo lo que el hábito lame hasta darle suavidad satisfactoria. Tanto más simple aceptar la fácil solicitud de la cuchara, emplearla para remover el café.

Y no que esté mal si las cosas nos encuentran otra vez cada día y son las mismas. Que a nuestro lado haya la misma mujer, el mismo reloj, y que la novela abierta sobre la mesa eche a andar otra vez en la bicicleta de nuestros anteojos, ¿por qué estaría mal? Pero como un toro triste hay que agachar la cabeza, del centro del ladrillo de cristal empujar hacia afuera, hacia lo otro tan cerca de nosotros, inasible como el picador tan cerca del toro. Castigarse los ojos mirando eso que anda por el cielo y acepta taimadamente su nombre de nube, su réplica catalogada en la memoria. No creas que el teléfono va a darte los numeros que buscas. ¿Por qué te los daría? Solamente vendrá lo que tienes preparado y resuelto, el triste reflejo de tu esperanza, ese mono que se rasca sobre una mesa y tiembla de frío. Rómpele la cabeza a ese mono, corre desde el centro de la pared y ábrete paso. ¡Oh, cómo cantan en el piso de arriba! Hay un piso de arriba en esta casa, con otras gentes. Hay un piso de arriba donde vive gente que no sospecha su piso de abajo, y estamos todos en el ladrillo de cristal. Y si de pronto una polilla se para al borde de un lápiz y late como un fuego ceniciento, mírala, yo la estoy mirando, estoy palpando su corazón pequeñísimo, y la oigo, esa polilla resuena en la pasta de cristal congelado, no todo está perdido. Cuando abra la puerta y me asome a la escalera, sabré que abajo empieza la calle; no el molde ya aceptado, no las casas ya sabidas, no el hotel de enfrente; la calle, la viva floresta donde cada instante puede arrojarse sobre mí como una magnolia, donde las caras van a nacer cuando las mire, cuando avance un poco más, cuando con los codos y las pestañas y las uñas me rompa minuciosamente contra la pasta del ladrillo de cristal, y juegue mi vida mientras avanzo paso a paso para ir a comprar el diario a la esquina.

Julio Cortázar – Historias de cronopios y de famas

A anatomia de um kiwi

Yat Kha

Isso é tão belo quanto inesperado. Descoberto pelo distinto Mojo. Procedo ao garimpo.