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Designer gráfico, fotógrafo, aprendiz de escritor e aspirante a diplomata.

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Sobre a doença

Uma de minhas lembranças mais anosas é a de me questionar sobre o exato momento em que se transcende da fase infantil para a fase adulta.

Me lembro de, com três anos, ganhar minha primeira bicicleta e, montado altivo sobre ela, pensar para mim mesmo: agora sou gente grande.

Mais tarde me convenci de que a transição estaria completa quando eu desfrutasse pela primeira vez da companhia de uma mulher nua – foi só quando aconteceu que me dei conta de que a primeira visão de pares de seios tesos, coxas volumosas e reentrâncias umedecidas cumprem o papel contrário: nos lança de volta ao estado de embasbacamento infantil.

O primeiro porre, a maioridade, a primeira briga (ou mais provavelmente a última), o primeiro emprego, a primeira casa … são todos marcos que julgamos ser demarcatórios do limite da vida adulta mas que, quando atingidos, provam serem destituídos do poder mágico de transformação que lhes atribuíamos.

Minha experiência mais recente, e vestígio mais contundente de ter, de fato, transposto essa barreira, foi ter que lidar com a doença de um ente querido.

Todo momento de convalescênça é imbuído de potencial deprimente, mas o câncer é especialmente cruel por ter aquele jeito único de destituir o paciente de toda a dignidade.

É uma doença única, por proporcionar uma total inversão de papeis. Quem lhe cuidou desde seu nascimento, dando de comer, consolando sobre os medos pueris, limpando suas fezes e oferecendo o tão necessário colo seguro, passa a ser quem precisa de cuidados, quem não é capaz de se alimentar sozinha, quem precisa ser limpada, carregada e desinfetada e, principalmente, consolada acerca de medos muito mais reais.

A dignidade, que se manifesta no pudor de se despir na frente do filho, de vê-lo limpar seus excrementos e dar-lhe de comer vai cedendo aos poucos, à medida em que a doença vai demonstrando que veio pra ficar.

Ainda não experimentei a paternidade, mas creio que a experiência da doença seja mais forte por tratar-se da possibilidade do fim de algo querido. A dor é sempre mais difícil de se aceitar que uma dádiva. E a queda daquilo que sempre representou seu ponto forte é como perder as asas durante o voo, quando não se tem certeza de saber planar.

E é contemplar essa dúvida que talvez possa representar a barreira final entre a vida de adolescente e a vida adulta.

Está certo, entretanto, quem jura haver facetas positivas em todas as experiências. Mesmo a doença, mesmo o câncer, cruel, agressivo e desumano, é capaz de revelar aspectos ainda desconhecidos mesmo com tantos anos de convivência. Jamais pensei que meu amor e admiração pudessem ir além. Mas assistir a quem amo, mesmo debilitada, assustada e às vezes desamparada, retirar forças de lugares ocultos e demonstrar bravura diante de inimigo tão injusto me faz querer ser alguém melhor e disposto a assumir as rédeas da vida, como adulto e como homem, mesmo quando quem sempre cumpriu o papel vier a faltar.

Comentários

    Inez

    Em janeiro 16, 2010 às 21:04

    Gustavo Caetano, quanta saudade! Lembra de mim? Inez de Niterói. Deve ter uns bons 5 anos que não nos falamos. Depois de um bom tempo sem lembrar de você resolvi procurar o Cacofonia e me deparei com um site muito bacano e vi os seus trabalhos muito legais. Fiquei feliz. Beijocas…


    antonio

    Em janeiro 24, 2010 às 0:22

    minha avó paterna morreu de câncer, aqui em casa. nunca convivi de verdade com a família do meu pai, então, mesmo com todo o sofrimento dela, sentia mais pena que tristeza. mas sempre vinha à mente a idéia de que eu estava tendo mais contato com ela (enquanto ela morria) naquela época do que já tivera em toda a minha vida.

    minha avó materna sofreu dois avcs há alguns meses e não é mais a mesma. com ela a situação é mais complexa, pois ainda está viva e não se lembra de ninguém, reclama de tudo, não quer comer etc. é como uma criança.
    fica difícil manter na memória a imagem daquela mulher altiva, com personalidade forte e uma resposta engraçada pra tudo; pois hoje, metade do que ela fala é delírio e a outra metade, reclamação. mas eu tento.


    Álvaro

    Em maio 18, 2010 às 18:23

    Lembro que vc questionou meu riso quando disse que minha avó tinha falecido. Acho que é isso. Viveu seus últimos dois anos sem tomar conhecimento de nada, fazendo o que bem entendia como uma criança, sem dor, sem tristeza, sem entender nada, inventando coisas e rindo de tudo. Talvez o fim dos sonhos.


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