
Ontem foi um daqueles raros dias em que meu relógio biológico estava de acordo com o resto do mundo e eu resolvi ir dormir cedo.
Mal passava da meia noite e meu monitor já estava desligado enquanto eu me aconchegava no pedaço do travesseiro que a Kisa, já devidamente posicionada, deixara pra mim.
Terminei de ler o livro do Lynch (que foi uma surpresa formidável) e apaguei.
Dormia calmo e profundamente quando fui acordado com um grito dentro do meu ouvido:
- FILHO DA PUTA!
Acordei sobressaltado, me encolhendo em posição de defesa, certo de que algum inimigo havia entrado na minha casa e estava prestes a me matar. Surpreso, não avistei ninguém.
Me sentei na cama ainda assustado e depois de raciocinar um pouco me convenci de que fora apenas um sonho. Quando me deitei novamente e já fechava os olhos o grito veio de novo:
- FILHO DA PUTA!
Me levantei. Vagueei pela casa tentando deduzir de onde o grito vinha, mas os blocos de apartamentos onde moro são posicionados de modo que o eco deixa esse tipo de adivinhação quase impossível.
- FILHO DA PUTA! SEU BOSTA!
Dessa vez tive certeza de onde vinha, e olhei pela janela do meu quarto.
No bloco do outro lado, a uns 10 metros de mim, estava um senhor barrigudo, careca, usando apenas uma cueca de seda, parado em sua sacada brandindo os punhos no ar:
- FILHO DA PUTA! SEU BOSTA!
Apesar de aparentemente seu vocabulário ser composto apenas por duas ofensas, o careca as usava com fúria contra seu inimigo invisível.
- FILHO DA PUTA! SEU BOSTA! – berrou mais uma vez.
A cada seqüência de gritos uma nova luz se acendia no prédio e silhuetas se deixavam entrever por detrás das cortinas.
Então meu interfone tocou. Tive certeza absoluta de que era o porteiro, que de certa deduzira que o autor dos gritos era eu e estava pronto para me anunciar que a polícia estava chegando.
Atendi ríspido, já pronto para discutir:
- O que foi?
- Gustavo … sabe o que é – disse pausando as palavras – o morador do 406 está meio fora de controle. Você não quer ir até lá comigo para conversar com ele?
- Eu? Por quê?
- Ah, você sabe … estou sozinho aqui … vai que ele se exalta.
- Olha, não vou não.
E desliguei.
Voltei para a janela e enquanto o homem, agora já vestido, continuava seu mantra de ofensas eu tateava no escuro desesperadamente pelo meu celular.
O porteiro resolveu ser cauteloso e foi até a garagem de onde podia conversar com o sujeito sem ficar na sua linha de ação.
- Meu senhor, por favor, é tarde.
- FILHO DA PUTA! SEU BOSTA!
- Tá todo mundo reclamando … ta todo mundo ouvindo esse escândalo!
- É PRA OUVIR MESMO! ESSE FILHO DA PUTA! ESSE BOSTA! ELE FICA ARRASTANDO MÓVEL TODA MADRUGADA SÓ PRA ME ACORDAR!
Enquanto isso eu lutava com o celular, apagando tudo da memória pra conseguir espaço e gravar a conversa. Finalmente consegui.
- Mas senhor …
- AS PESSOAS TEM QUE OUVIR PRA VER O QUE EU PASSO! EU SOFRO!
- Olha, vou ter que chamar a polícia se você continuar com isso!
- PODE CHAMAR! – Pausou por um instante e disse – PERAÍ! – e então entrou pra dentro de casa.
Certo de que ele fora buscar uma arma, mudei minha posição, de maneira que só meus olhos ficassem expostos e que fosse possível filmar o corpo do porteiro caso ele fosse baleado.
Então o sujeito voltou brandindo uma vassoura.
- VOCÊ ACHA QUE É MACHO?!!!!!!! – gritou socando a vassoura no teto – DESCE AÍ ENTAO! VAMOS RESOLVER ISSO NA BRIGA! EU QUERO BRIGAR! FILHO DA PUTA! SEU BOSTA!
Depois de socar o teto por mais uns 15 minutos sem conseguir resposta de seu alvo, o homem pareceu finalmente ter cansado e se retirou.
Não consegui mais dormir depois disso. Fiquei rindo da situação a noite inteira.
Hoje de manhã quando fui conversar com o porteiro acerca do ocorrido ele me revelou que o vizinho de cima, o que estava sendo intimado para um duelo de vassouras, é na verdade uma velhinha.
Presente especial, de uma pessoa especial.
Agora tenho um livro autografado do Lynch **
Ha!
Bem feito pros bobos que se maravilharam com o embuste dessa raça ruim.
Acabou de tocar meu interfone, era o porteiro:
- Alô, Gustavo?
- Sim.
- Mais cedo um amigo seu passou aqui e deixou um quimone que está à sua disposição.
- O quê?
- Um QUI-MO-NE! De lutador!
- Ah, sim, um quimono.
- Isso, um quimone.
- Hahaha!
- O que?
- Nada, vou pegar.
- JÓIA!
… andam perigosamente perfeitas.
Tudo que eu faço tem dado certo. Tudo que eu quero eu tenho conseguido. Encontrei amor, conforto e covinhas pra morder.
Tenho a sensação de que serei atingido por um trem a qualquer momento.
Por via das dúvidas tenho olhado para os dois lados antes de atravessar.