Sempre esqueço ao menos a metade do que deveria comprar quando vou fazer compras. De maneira que acabo tendo que retornar ao mercado, às vezes por mais de uma ocasião, para pegar o que faltou.
Há várias características marcantes ao meu respeito. Algumas delas são a minha barba desgrenhada, meu jeito para poucos amigos e a celeridade impressionante com que consigo ficar embriagado.
Outra, pouco menos óbvia, é minha aversão patológica a filas.
Não é ficar um tempão de pé que me incomoda. É ficar um tempão de pé na companhia de PESSOAS. Pessoas suam, esbarram, espirram, encostam e, o mais aterrorizante de tudo, puxam conversa.
E em TODA fila, há o puxador de conversas. Sem exceções. Se houver uma fila com duas pessoas, uma delas será o puxador de conversa. Acredite.
É por isso que sempre vou ao mesmo mercado. É grande, repleto de opções, e o mais importante, aglomerado de caixas, o que faz com que o suplício de enfrentar a fila dure pouco.
Mas hoje, movido por uma força cuja origem desconheço, resolvi variar e parar no mercado que fica no caminha da faculdade.
Comprei ovos, pão integral, tofu, palmito, rúcula e alface hidropônicos.
O mercado só dispunha de 10 caixas. Todos abarrotados. Resolvi tomar a fila para um dos caixas rápidos, chamados assim porque supostamente só podem ser usados por pessoas com menos de 20 itens em seu carrinho.
Ouvia Of Montreal no MP3 Player quando o senhor da frente se voltou pra mim e começou a gesticular. Era um sujeito na faixa dos 50 anos, careca, com óculos bifocais de armação grossa tipo casco de tartaruga dependurados no pescoço por uma cordinha. Tinha um olhar vidrado e um nariz adunco que me lembrou muito um dos personagem do filme Labirinto, com David Bowie.
Seus lábios se moviam em minha direção. Sem obter uma resposta, supôs que eu não conseguisse ouvir e aumentou o tom de voz. Em resposta aumentei o volume do meu MP3 Player.
Então ele me cutucou.
Era um puxador de conversa. Em sua mais atroz e temível encarnação: aquele que cutuca.
Retirei um dos fones e disse:
- Sim?
Ele repetiu afoito, parecendo muito feliz por ter conseguido travar um diálogo:
- Olha essas pessoas. Tão pegando a fila do lado. Não é fila única?
Apontei pra uma placa em cima de um dos caixas onde se lia “Atenção: as filas dos caixas rápidos não são únicas”.
Ele leu, baixou os olhos tristes e me comunicou:
- Vou pra lá também.
- Tudo bem – respondi.
Enquanto movia seu carrinho para a outra fila reparei seu conteúdo: um pacote de pães, um pote de castanha de caju e UM pepino.
Voltei a ouvir música enquanto o observava tentar puxar conversa com uma moça que estava a sua frente. Ela tampouco deu-lhe atenção, o que parece ter-lhe frustrado de tal maneira que pegou o pote de castanhas, abriu com violência, enfiou um punhado na boca, mastigou furioso, fechou e o retornou ao carrinho.
Em seguida foi embora, deixando pra trás seu carrinho, com as castanhas comidas, o pacote de pão e o solitário pepino.